domingo, 30 de agosto de 2015

Resenha | Toda Luz Que Não Podemos Ver - Anthony Doerr

Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu. Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial.
Escrever uma obra a respeito da Segunda Guerra Mundial nunca é tarefa fácil; inúmeras pesquisas e um certo grau de sensibilidade são necessários para que o conjunto funcione. Não conhecia o trabalho de Anthony Doerr, mas posso dizer que seu romance superou minhas expectativas em grande parte da leitura. Toda Luz Que Não Podemos Ver fala sobre infância, inocência, guerra, maturidade, amor e esperança. Páginas e mais páginas capazes de tocar o mais frio leitor. 

Deus, porém, é apenas um olho frio e branco, uma meia-lua suspensa na fumaça, piscando, piscando, à medida que a cidade gradativamente vai se deteriorando até virar pó.

Não espere um conto de fadas idealizado, não ache que na última página irá se deparar com um final feliz. Marie-Laure e Werner contam suas histórias a partir do mesmo cenário de guerra que passa a definir suas vidas, onde ambos precisam crescer rápido demais. É dolorosamente encantadora a forma como o autor constrói os sonhos dessas duas crianças e mostra como a pureza e inocência da infância são destruídas pela esmagadora crueldade de uma guerra que não pertencia a elas.

Enquanto Marie-Laure, vivendo em Saint-Malo, conhece o medo do domínio e o sentimento de revolta que pode crescer nas pessoas, Werner, na Alemanha, vê o conflito através dos inúmeros olhos de seus colegas na escola militar, onde todos, num primeiro momento, anseiam por seus dias no campo de batalha. Os dois, em determinado momento, se deparam com perdas e injustiças provocadas pela guerra e precisam aprender a lidar com a situação de maneira a garantir a própria sobrevivência, pois, no fim, tudo se resume a isso. 

E Anthony Doerr consegue muito bem distinguir seus personagens ao longo da narrativa. Somos apresentados a diversos pontos de vista e há uma estruturação completamente diferente a partir do momento da troca de protagonista do capítulo em questão. De uma maneira brilhante ele mantém seu estilo - conciso, simples, inteligente - ao mesmo tempo em que constrói uma escrita essencialmente singular para seus personagens.


Não creio que exista uma receita de bolo para livros com essa temática, mas me incomodou que em seus capítulos finais Doerr tenha feito algo muito similar àquilo proposto por Markus Zusak em A Menina Que Roubava Livros. Ao meu ver, o final se tornou consideravelmente previsível a partir de determinado acontecimento - não, isso não tirou a beleza da história e tão pouco fez o livro não merecer sua fama. Leia e tire suas próprias conclusões. Mas esse é definitivamente um dos melhores lançamentos do ano.




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