sábado, 12 de setembro de 2015

Resenha | Filme Noturno - Marisha Pessl

Em uma noite fria de outono, Ashley Cordova é encontrada morta em um armazém abandonado em Manhattan. Embora a polícia suspeite de suicídio, o jornalista Scott McGrath acredita que exista algo mais por trás dessa história. Seu interesse pelo caso não é gratuito: Ashley é filha do famoso e recluso diretor de filmes de terror Stanislas Cordova, um homem que não é visto em público há mais de trinta anos e que, no passado, teve um papel trágico na vida de McGrath. 
Impulsionado por vingança, curiosidade e necessidade de descobrir a verdade, o jornalista é atraído para o horripilante e hipnótico mundo de Stanislas. Da última vez que chegou perto do cineasta, McGrath perdeu o casamento e a carreira. Dessa vez, pode acabar perdendo muito mais.

Algumas poucas vezes nos deparamos com um livro que brinca com nossa consciência; não sabemos o que é certo ou errado, real ou imaginário. Nos perdemos dentro das páginas, deixamos de lado nossos princípios, somos consumidos pelo suspense e torcemos pelo personagem que não segue os padrões morais. Esse é um fato raro, que não acontece com frequência, mas aconteceu com Filme Noturno. 

O segundo romance de Marisha Pessl pode parecer, a primeira vista, mais um thriller policial no meio de muitos. Apenas um daqueles que lemos um poltrona confortável no meio da tarde com o cheiro de café impregnado no ar. Engana-se quem pensa de tal forma. O mistério da trama, o suicídio de Ashley Cordova, nos consome de maneira tão intensa que é impossível classificá-lo como um livro qualquer. 

Seu protagonista, o jornalista investigativo azarento, acaba se tornando um personagem secundário à margem de uma investigação que ultrapassa os limites da realidade. São diversos pontos de vista a respeito de uma mesma história e, em determinado momento, não sabemos qual deles, qual das "testemunhas", está dizendo a verdade, pois cada versão da vida de Ashley é tão fantástica que nos agarramos a ela sem pensar duas vezes.

E isso deve-se ao fato da narrativa conter recortes de jornais, fotos, emails, etc., fazendo com que acompanhemos Scott McGrath em sua investigação de uma forma mais sólida. É aqui que agradeço a Editora Intrínseca por ter feito um trabalho sensacional, executando com maestria a tarefa de manter a mesma qualidade da edição original. Se não fosse pela equipe envolvida no trabalho, não teríamos um resultado tão magnífico. 

Em vários momentos, devido a solidez dos fatos apresentados no livro e a forma como ele se encaixa em nossa realidade, me vi desejando conhecer a obra cinematográfica de Stanislas Cordova, somente para me lembrar de que estava lendo uma ficção. É isso o que a autora faz: ela nos envolve nesse mundo que confundimos com o nosso e, sem perceber, não queremos mais deixá-lo.

Quando você finalmente voltava à vida real após trabalhar com Cordova, era como se todas as cores tivessem sido reforçadas nos seus olhos. Os vermelhos eram mais vermelhos. Os pretos, mais pretos. Você sentia as coisas profundamente, como se seu próprio coração tivesse agigantado, inchado e se tornado mais tenro. Você sonhava. E que sonhos.


A escrita da Marisha Pessl é envolvente, sombria e nos confunde a todo tempo, exibindo detalhes e personagens que parecem de pouca importância quando, na verdade, são cruciais para o conjunto da obra. Filme Noturno é um thriller intrigante, inovador e impecável em termos de fascinar o leitor.



Nenhum comentário:

Postar um comentário