segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Resenha | Mussum Forévis: Samba, Mé e Trapalhões - Juliano Barreto

Cacildis! Tudo o que você sempre quis saber sobre o Mussum, mas não podia perguntar ao Didi. Antonio Carlos Bernardes Gomes, mais conhecido como Mussum, é um dos mais amados humoristas brasileiros. Mas você sabia que ele também era sambista? E que era torcedor fanático da Mangueira? E que serviu a Aeronáutica?Mussum é cultuado inclusive por quem não teve a oportunidade de vê-lo junto a Didi, Dedé e Zacarias no saudoso programa Os Trapalhões . Mussum forévis, a primeira biografia deste ídolo e artista multifacetado traz detalhes não só sobre sua carreira na TV, mas como músico em conjuntos como Os 7 Modernos e Os originais do samba . Este último inclusive costumava se apresentar como banda de apoio de artistas do porte de Elis Regina, Jorge Ben, Jair Rodrigues, Martinho da Vila e Baden Powell. O mé, a relação com Renato Aragão e os outros Trapalhões, e muito mais nessa biografia imperdívis.

Em 2016 Os Trapalhões fazem 50 anos e provavelmente haverão homenagens, lembranças de bons tempos e coisas do gênero. O livro definitivo para se inteirar sobre isso (e se divertir) é a biografia sobre o Mussum, um livro extremamente divertido de se ler.

O livro trata de todas as fases da vida de Antonio Carlos Bernardes Gomes, desde a infância no internato, a vida militar e a partir dela a descoberta de suas grandes paixões: a boemia, o samba e o popular mé. Quem só o vê em forma de bordões em camisas, canecas e produtos do gênero não imagina que além de sua trajetória como humorista há uma história riquíssima.

Mussum foi militar e equilibrava a vida militar com suas andanças pelas ruas(de bar em bar), além de suas apresentações com Os Originais do Samba, além de aparições ocasionais na televisão em humorísticos. Em um desses programas ele ganha o apelido característico graças à Grande Otelo. Quando dá baixa do exército e o grupo começa a ter notoriedade, Chico Anysio o chama para fazer a Escolinha do Professor Raimundo, um sucesso na época. Sucesso que seria lembrado mais tarde.

O autor tem o cuidado de analisar todos os discos dos Originais do Samba cronologicamente e apontar o sucesso crescente da banda durante a década de 1970. Nessa mesma década Renato Aragão, já com Os Trapalhões, chama Mussum para fazer parte do grupo. Depois de relutar um pouco, o convite é aceito e assim ele entra para um dos maiores grupos de humor na história, os outros três integrantes são personagens importantes nesse livro, em especial Dedé Santana, seu melhor amigo ali. Assim houve sucesso nas duas frentes de sua vida, sucesso esse que aumentou quando o quarteto foi para a Globo, onde além da audiência ser maior, era possível incluir músicas dos Originais nas novelas globais e vídeo clipes no Fantástico (algo importante na época). No fim da década de 1970, com os horários mais complicados de se lidar, Mussum decide se dedicar apenas ao grupo humorístico.

Há então uma análise cronológica dos filmes (é fácil acompanhar, pois os capítulos são separados por anos, então sempre uma ou duas avaliações em quase todo capítulo) e uma visão de como o programa funcionava em seu auge, como Renato era o administrador workaholic do grupo e das finanças, os outros três simplesmente tocavam suas vidas como achavam melhor, trata do clima de galhofa que sempre aconteceu nos bastidores e que eventualmente era improvisado no programa, quase sempre entre Didi, Dedé e Mussum (Zacarias era mais calmo), as dificuldades técnicas para a filmagem de alguns filmes e entre tudo isso muito mé bebido por Mussum nos mais diversos lugares. Além de tratar do racismo, tão criticado nos tempos atuais, mas que simplesmente era engraçado naquela época e que Mussum rebatia vigorosamente com humor(principalmente quando Renato Aragão começava), em especial quando chamado de negão, ao que respondia “Negão é teu passado!” ou “Negão é tua véia!”.

Aborda também a separação do grupo em 1983 por questões administrativas, os dois filmes feitos naquele ano, um do Didi e outro dos dissidentes, de como o povo ficou do lado dos 3 e a reconciliação, orquestrada por Beto Carrero

O resto da década segue com seus filmes, a briga de Renato com a crítica (que tem uma trégua quando é feito O Trapalhão no Auto da Compadecida), eventuais mudanças na direção do programa que não mudam a essência do programa, estando assim tudo certo. Embora a idade comece a pesar. E assim, em 1990, Zacarias tem complicações na saúde e é o primeiro a morrer, algo que abala o grupo, mas eles continuam a trabalhar, embora o programa comece a perder parte de seu brilho e outras atrações o ameacem, em especial o Domingão do Faustão, na época em ascensão. Em três anos, direções equivocadas e uma crise criativa deixam o programa ameaçado. Além disso, com a crise do cinema nacional, os cinemas ficam sem filmes dos Trapalhões depois de décadas.

No período de férias, começo de 1994, passam-se reprises em horários alternativos, que dão audiência muito expressiva(era a primeira vez que muita coisa era reprisada, uma geração descobriu o clássico) , o grupo deixa de estar em baixa. Mas justo quando as coisas começam a sorrir de novo, Mussum é hospitalizado e precisa de um transplante de coração. Um drama de proporções incríveis se inicia e acaba não tendo final feliz, com o protagonista dessa história fantástica morrendo. logo um dia antes do Criança Esperança 1994.

O último capítulo é um epílogo, que trata da curta tentativa de continuação do programa, a continuação que efetivamente aconteceu em Portugal e uma análise sobre como Mussum e seus bordões e referências se mantém relevantes décadas depois de sua morte.

O livro vale muito a pena, um livro que apesar de poder ler de graça em livrarias, esperei o preço cair, pois valia a pena aproveitar sem pressa. Extremamente divertido, apresenta um mundo de música inesperado, mostra momentos históricos no humor e na música brasileira, como disse no início, é o mais completo registro literário sobre Os Trapalhões, algo importante. Minha única ressalva é que em alguns casos o autor avaliou com rigor excessivo algumas obras (filmes, discos), mas nada que comprometa a obra.

                               

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