quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Resenha | O Oceano no Fim do Caminho - Neil Gaiman

Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino. Ele sabia que os adultos não conseguiriam - e não deveriam - compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível - as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

É difícil falar de Neil Gaiman sem lembrar de Sandman, uma de suas obras mais famosas e prósperas, que tem um embasamento filosófico, mitológico e eu diria até meio psicodélico. Com esse pensamento me aventurei em O Oceano no Fim do Caminho, e confesso que praticamente me obriguei a ler, pois imaginei que o tipo de leitura que me aguardava não iria me agradar. Quando peguei o livro pra ler não sabia absolutamente nada sobre ele, apenas tive a curiosidade despertada pela capa que mostrava uma menina sob a água, e todas as minhas expectativas em relação a essa imagem e o que estava no livro não eram exatamente maravilhosas.

Como não sabia direito o que esperar, o livro começou sem muitas intenções, algumas histórias soltas aqui, umas torradas queimadas ali, e de repente... Um homem morto misteriosamente dá o ponto de partida ao livro. A história se desenrola e de repente uma pergunta em diálogo aparentemente despretensioso me surpreende e aí sim eu descobri o que estava lendo e fiquei muito empolgada.

A história é narrada a maior parte do tempo por uma criança de sete anos, em outros momentos quem narra é a mesma pessoa, porém em um outro momento. Foi interessante ler um livro adulto/juvenil sob a perspectiva de uma criança que conta suas aventuras de uma maneira bem madura, e é algo completamente compreensível já que a infância dessa criança fora madura e assustadora. Mas ainda assim, o livro trás a tona a surpresa e a ingenuidade de uma criança. Há certas cenas e diálogos que me fizeram perguntar "Ei, o que tá acontecendo aqui? Como isso é possível ?!" e segundos depois o narrador faz os mesmos questionamentos, mas é claro que, para a imaginação de uma criança, as explicações foram bem mais convincentes para o personagem do que para mim.

O livro também consegue despertar a imaginação do leitor de qualquer idade de uma maneira complexa:

O rosto era esfarrapado e os olhos eram buracos profundos no tecido. Não havia nada por trás daquilo, era só uma máscara de lona cinza, maior do que eu jamais teria imaginado, toda rasgada e retalhada, balançando com as rajadas de vento de tempestade [...] A coisa gesticulou com um dos membros, que mais parecia uma vela mestra quebrada, e eu senti meu corpo tremer.

A leitura de O Oceano no Fim do Caminho propõe a reflexão sobre nossa infância e o impacto que ela tem na vida adulta. E é justamente esse pensamento que leva o leitor a descobrir se tudo o que aconteceu na história foi pura fantasia da cabeça do protagonista – cujo nome não é citado em NENHUM momento –, ou se realmente aconteceu.


Hoje minhas estrelas serão 4! Pois o livro foi para mim muito surpreendente e realmente trouxe bons pensamentos para meu dia a dia, embora algumas partes fossem meio perturbadoras. Gaiman mais uma vez consegue levar o leitor a seu mundo e mudar sua forma de olhar a cada obra. Só não dou 5 estrelas pois esperava ver mais histórias e aventuras do tímido menino de sete com cabeça de treze, mas fora isso, valeu a experiência.


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