Top Social

Resenha | Adoro Problemas - Michael Moore

domingo, 28 de fevereiro de 2016
Michael Moore (Tiros em Columbine, Sicko, Fahrenheit 9/11) é um documentarista/escritor que ao longo dos anos lida com questões políticas e sociais com bastante bom humor e ironia. É especializado em desmascarar e desconstruir pessoas e grandes organizações.

Esse livro é uma biografia peculiar, composta por vários contos onde nem sempre Moore é o protagonista. De fato, ela já começa pelo epílogo, a partir do momento de sua vitória no Oscar por Tiros Em Columbine e a reação por seu discurso contra o presidente Bush dias após a guerra no Iraque ser declarada. O que uma pessoa faz quando é considerada inimiga do país por grande parte conservadora do país? Faz outro documentário, agora denunciando como a eleição foi roubada, quem roubou, quem foi favorecido pelos ataques de 11 de setembro e como o ataque ao Iraque foi baseado numa farsa.

Há historias de infância e de juventude que mostram o cenário da classe média americana dos anos 60 e 70, aquela que se vê em séries antigas, e seus problemas no paraíso. Michael aprende sobre discriminação racial, conceitos sobre a guerra, o amor, a vida e aprende que não pode ser padre.

Alguns dos pontos altos do livro são as histórias da família Moore, como as do lado materno da familia no século XIX sendo co-fundadores da cidade onde vivem até hoje e de como lidavam de forma digna com os índios locais. Ou as histórias do pai de Michael antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Momentos históricos por uma ótica diferente.

Além de toda a questão familiar, o livro (e a vida de Moore) tem certos tons de Forrest Gump, pelas situações curiosas e seus encontros com personalidades e presidentes americanos antes de sequer cogitar ser cineasta. Se destacou discursando contra um clube que não aceitava sócios que não fossem brancos diante do presidente do mesmo, que patrocinava o evento, se tornou o mais jovem  membro do conselho escolar só para demitir a diretoria que era abusiva fisicamente, tentou fugir do país pra não ser convocado para o Vietnã. Tudo isso antes dos 20.

Conforme a idade vai passando, a importância vai crescendo, o autor causa o caos no conselho estudantil por querer fazer o certo, enfrenta uma eleição corrupta tentando o derrubar do cargo, sente pena de Richard Nixon em um protesto, descobre o amor, funda um jornal e bate o telefone na cara de John Lennon.

Notem que estou narrando tudo isso por alto, o livro é algo absurdamente amplo e a narrativa de Moore faz toda a diferença e vale muito a pena ser lido.

Uma habilidade notável do autor é de se infiltrar em ambientes privados e deixar sua marca, assim ele invadiu um cemitério nazista para protestar contra Ronald Reagan (e ainda citando Ramones no capítulo), lidou com neo nazis nos EUA e no que talvez seja o melhor capítulo do livro, se infiltrou e descobriu o esquema que destroçou a classe média americana e explica a visão dos empresários sobre transferir empregos para países onde os custos são menores, no caso o México.

O livro termina explicando como a vontade de ser cineasta surgiu em meio a uma cidade outrora grande e símbolo da classe média trabalhadora (os funcionários das fábricas tinham um campo de golfe para eles nos bons tempos, algo inimaginável) que graças a essa crise se arruinou em pouco tempo (e continua arruinada, conforme se vê em seus documentários ao longo dos anos). Relata todo a luta para criar, montar o filme e tentar uma entrevista com o presidente da GM, Roger Smith, uma saga tão longa que se tornou o nome do filme: Roger e Eu. O divertido é pensar que anos depois, quando a GM quebrou, Michael voltou lá e tentou entrevistá-lo de novo para o documentário Capitalismo: Uma História de Amor, ironia fina.

É um livro altamente recomendável. é uma parte da história contemporânea contada com bom humor, com seus momentos de emoção na medida certa. Tão bom quanto seus filmes.


Post Comment
Postar um comentário