sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resenha | Rock Albums of the '70s: A Critical Guide - Robert Christgau

Hoje falaremos sobre crítica e tenho um livro bom pra abordar o tema, mas antes preciso falar um pouco sobre o tema e o autor desse livro, a história é boa.

Crítica é algo que em tese qualquer um pode fazer, é só usar alguns termos específicos pra parecer inteligente, falar mal de muita coisa pros leitores/consumidores/espectadores da crítica respeitarem. É ideal também perseguir eventuais estilos e novidades, por vezes de formas injustas. Por exemplo, semana passada abordei que críticos tinham como esporte bater no Roupa Nova por ser “popular”, um eufemismo para brega, cafona. Um rótulo que prejudica artistas e por vezes contamina a visão do público quanto a alguns artistas. Na minha primeira resenha aqui eu citei que até mesmo Roberto Carlos, maior campeão de vendas fonográficas desse país, teve problemas com a crítica em todo seu período de auge criativo(1965 - 1983), quando todo o disco tocava nas rádios o tempo, vendas de quase 3 milhões de discos por álbum, etc. Críticos tem problemas com o popular e sempre exaltam uma casta especial de artistas, que pra eles nunca fazem algo errado, no máximo algo experimental.


Ainda assim, levo crítica musical em consideração, pesquiso sobre álbuns e na Wikipedia há a lista de notas dada pela imprensa, assim acabei esbarrando no crítico Robert Christgau, auto intitulado como o Decano dos Críticos Rock and Roll, um dos mais respeitados e considerados na história. Por vezes ele é terrivelmente pomposo, algo que parte do público por vezes concorda. Além disso, nem todos os artistas aceitam bem seus comentários, Sonic Youth lançou uma música chamada I Killed Christgau With My Big Fucking Dick após uma crítica não muito boa. Lou Reed passou uns bons minutos o xingando num show que virou álbum ao vivo(algo que ele levou na esportiva, até o agradecendo por ter acertado a pronúncia do sobrenome). Ele fez um coluna histórica no Village Voice até o jornal ser comprado por um conglomerado que contestava sua linha editorial, ele ainda está por aí avaliando em outras mídias e seu site tem arquivos extensos.


Assim, depois de ler sobre, passar no site para ver avaliações de artistas que gosto(e me indignar em alguns casos) e saber mais sobre, resolvi comprar um livro dele. Livros lançados por ele são equivalentes a aqueles livros grossos, aquele guias de cinema que tem uns dez mil filmes e suas avaliações, algo feito anualmente por críticos como Leonard Maltin. Assim, comprei Christgau’s Guide Rock Albums of the 70’s. Mais de 3000 álbuns avaliados, todos eles escutados bem mais de uma vez, pelo menos três(exceto os bem ruins).

As primeiras trinta páginas tratam da origem do guia, a metodologia de avaliação, como as notas funcionam e uma breve análise da década. No conceito dele as críticas são como se fossem um guia para o consumidor de rock, Ele admite seus preconceitos:

“Há discos com notas baixas como C - que podem valer a pena adquirir se seus gostos são bem diferentes dos meus. Mas se você gosta de muitos Ds e Es, você deve parar de ler minha coluna - não temos nada em comum, inclusive a inteligência.

Ele define seu estilo como semipopular, pois ao mesmo tempo que música popular deve ser popular, atingir ao grande público, ele escolhia como melhores álbuns do ano pela qualidade, não pela quantidade de vendas. Nos destaques da década para ele temos George Clinton, David Bowie, Bob Marley, Brian Ferry, Bruce Springsteen, Neil Young e Al Green. Além de alguns que não faziam álbuns inteiramente ótimos, mas sempre lançavam faixas excelentes, o que subiam a nota do álbum.

Após essas páginas e uma em especial explicando as notas, que vão de A+ a E-,sendo que algumas notas foram revisadas, positiva ou negativamente. Depois de tudo isso, vem a diversão. Bandas conhecidas, outras nem tanto. Álbuns clássicos levando notas inesperadamente baixas, mas eventualmente com uma explicação decente, geralmente bem humorada. Eis o ponto, você pode se fascinar por coisas avaliadas e assim descobrir artistas novos de quatro décadas atrás. Ao mesmo tempo, você pode ser fã de alguém e procurar o que ele acha de seu trabalho, o resultado pode não ser muito satisfatório. Aprendi isso da pior forma com Elton John, os fãs de Frank Zappa nunca o perdoaram, por exemplo. Até transcreverei aqui uma de minhas resenhas favoritas, o disco é No Secrets, de Carly Simon, de 1972:

Se um cavalo pudesse cantar em apenas um tom, soaria como Carly Simon, só que o cavalo não rimaria “yacht”, “apricot e “gavotte”. Isso é alguma piada? Por que Mick Jagger a quis? Por que James Taytlor a quer? Parando pra pensar, por que é que ela quer qualquer um deles?

A nota disso surpreendentemente foi B-, nada mal vindo de quem é. O ponto é, o livro é altamente recomendável, pode ser um tanto extenso, mas faz um bom trabalho avaliando o que houve de bom na década, pois apesar de o título falar de álbuns de rock, é bem abrangente, trata de country, folk, reggae, ritmos africanos, etc.

Ao final do livro há a lista dos álbuns que receberam nota A, os mais recomendáveis, há aproximadamente 40 por ano, além de singles e álbuns dos anos 50 e 60. Além de detonar algumas bandas gratuitamente, há uma seção de músicos e bandas separados para análises futuras, onde aparece Yoko Ono, o que tira um pouco da credibilidade, convenhamos.

Um livro bom o bastante para me fazer procurar os outros dois, que abordam décadas 80 e 90, respectivamente. Que me fez compreender melhor críticos musicais e me deu problemas pra avaliar música. Um bom sinal? Não, pois pretendo falar de música nessa coluna de vez em quando. É um livro raro de se encontrar e caro de se comprar, mas vocês sao modernos e provavelmente baixarão.


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