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Resenha | As Virgens Suicidas - Jeffrey Eugenides

sábado, 21 de maio de 2016

Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida. Adaptado ao cinema por Sofia Coppola, publicado em 34 idiomas e agora em nova tradução, o livro de estreia de Jeffrey Eugenides logo se tornou um cult da literaturanorte-americana contemporânea. Não por acaso: essa obra de beleza estranha e arrebatadora, definida pela crítica Michiko Kakutani como "pequena e poderosa ópera no formato inesperado de romance", revela-se ainda hoje em toda a sua atualidade.

Publicado em 1993 como romance de estreia de Jeffrey Eugenides, As Virgens Suicidas narra a breve vida das irmãs Lisbon: jovens, belas e inalcançáveis. As cinco, por motivos desconhecidos, cometem suicídio, cada uma a seu modo, deixando diversas lacunas a serem preenchidas. Isso leva alguns de seus vizinhos – seus colegas de escola – a refletirem, anos depois, o que provocou o tão tenro adeus das meninas, dando origem ao diário que compõe o livro.

Apesar de não ser uma obra inspirada em um fato concreto, As Virgens Suicidas traz muita precisão em suas páginas, transformando as jovens em figuras míticas que encontraram a realidade, sendo agora descritas através das palavras de Eugenides. Ao longo da narrativa dos meninos, que mesmo anos após os acontecimentos ainda não puderam superá-lo, somos apresentados a Therese, Mary, Bonnie, Lux e Cecilia, todas presas em um mundo que não puderam conhecer.

A residência dos Lisbon, um local presumidamente seguro e acolhedor, mesmo com as esquisitices da religiosa e severa Sr.ª Lisbon, somente se vê ruir após a morte de Cecilia, a filha mais jovem do casal. É então que nos tornamos parte do grupo de meninos que tenta compreender a vida dessas cinco garotas que pedem socorro de forma silenciosa mas, quando não obtêm resposta, deixam os gritos morrerem, afogando-se gradativamente em seu sofrimento.

Vemos muitos indícios do acontecimento que marca a obra de Eugenides - o suicídio das irmãs - ao longo da leitura, mesmo que os meninos não percebam prontamente por manterem as Lisbon em um pedestal. Dessa maneira, somos obrigados a vê-las definhando dentro da casa que aos poucos também se deteriora por falta de cuidados. Aqui vale ressaltar um ponto interessante no estilo do autor: pequenos detalhes que inicialmente podem ser considerados irrelevantes e diversas metáforas, como o exemplo da casa.

Sem dúvida o autor soube estruturar muito bem seu livro, conseguindo amarrar diversas pontas soltas, mesmo com as perguntas que permanecem ecoando na cabeça do leitor após a última página. Uma delas é o suicídio de Cecilia, que não apresenta um motivo específico ou claro o bastante, ao contrário do que ocorre com suas irmãs meses depois, o que acaba gerando inúmeras teorias entre os personagens e leitores. 


Assistir a adaptação de Sofia Coppola, lançada em 1999 e estrelada por Kirsten Dunst (Lux Lisbon), é o gatilho que leva muitos a conhecerem a publicação de Eugenides. Um comparativo entre as duas obras chega a ser desnecessário, mas é imprescindível pontuar o quanto o filme de Coppola se aproxima da narrativa do autor, fazendo com que seja igualmente desfrutável. Dito isso, podemos concluir que As Virgens Suicidas é uma obra que vai além daquilo que se propõe, traçando calmamente o caminho nebuloso até a mente das meninas Lisbon, sem transformá-las em clichês, porém abrindo os olhos dos leitores para temas como depressão e abuso familiar de forma direta.



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