quinta-feira, 5 de maio de 2016

Resenha | Sandman, Vol. 1: Prelúdios e Noturnos - Neil Gaiman

Poucas HQs na história do mundo ocidental transcenderam o gênero e romperam barreiras como Sandman conseguiu. Mesclando mitologias modernas e fantasia sombria, além de acrescentar elementos modernos, históricos e míticos, Sandman foi considerada uma das séries mais artisticamente ambiciosas dos quadrinhos. Quando foi concluída, em 1996, já tinha mudado a nona arte para sempre e se tornado um fenômeno de cultura pop, bem como um marco das HQs, tornando difusa a fronteira imaginária entre os quadrinhos de massa e o que consideramos como arte.

A série conta a história de Morfeus, um dos Perpétuos — criaturas análogas aos deuses, mas ainda maiores — responsável pelo Mundo dos Sonhos. Basicamente ele controla e tem acesso a todos os sonhos da humanidade e de todas as criaturas capazes de sonhar, sendo o senhor do Mundo dos Sonhos, a terra aonde vamos em nossas horas de sono.

Escrita pelo grande Neil Gaiman, Sandman é uma história em quadrinhos um pouco diferente das usuais; ela é publicada por Vertigo, uma impressão de DC Comics. A história é vista do ponto de vista de Sonho, um dentre os sete perpétuos, a representação antropomórfica do sonho, inicialmente preso por um grupo de humanos que almejava prender sua irmã mais velha Morte para que se tornassem imortais, mas falham e capturam sonho.

Sonho (que também é conhecido como Morpheus, Sandman, Oneiros, (Lorde) Moldador, Kai’Ckul, senhor do sonho e vários outros em línguas já esquecidas) é o governante do Sonhar. Ele é um Pérpetuo. Os perpétuos são manifestações antropomórficas de aspectos comuns a todos os seres vivos: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. Os sete perpétuos não são deuses, mas sim entidades além, responsáveis pelo ordenamento da realidade conhecida. Só sua existência mantém coeso o universo físico e todos os seres vivos.

O livro tem capa dura e é bem grandinho, dividido em três arcos: Prelúdios e Noturnos, A casa de Bonecas e Terra dos Sonhos, além de algumas histórias soltas. Quando peguei pra ler a primeira vez, logo vi que não se tratava de uma outra HQ da DC, a história possui um quê de complexidade e requer do leitor uma mente bem aberta que não imagine o desenrolar dos fatos no planeta Terra, mas sim tendo em mente o universo de uma forma geral.

Sandman é o personagem principal da trama e possui mais seis irmãos, que são os perpétuos já mencionados acima. (Todos eles por coincidência ou não começam a letra “D”: Destino, Destruição, Desejo, Desespero, Delírio – e no caso, o Sandman que também é chamado de Sonho, seria, em inglês, Dream, e Morte, seria Death). Sandman (Homem de Areia, em inglês), vem do mito americano sobre uma figura que sopra areia nos olhos das crianças para que elas durmam - Uma outra ideia também é que essa areia seja aquela que fica no canto dos olhos quando acordamos... 

O interessante da história é que os perpétuos são conceitos que se tornaram físicos a partir do surgimento da vida, que são comandados pela humanidade ou a regulam. Eles têm o domínio dessas sensações que os nomeiam e são imortais desde e enquanto exista a vida humana. Existe, por exemplo, no reino do Sonhar, uma biblioteca cheia de livros, alguns escritos, e outros com páginas totalmente em branco, que representam os sonhos que ainda “não foram sonhados”. Alguns dos irmãos, como Sandman/Sonho, por exemplo, não gostam de comandar seus respectivos reinos, mas outros irmãos não possuem tantas boas intenções assim.

Existem outros conceitos/entidades além dos perpétuos, como Ordem, Nada e Caos que é curiosamente representado por uma menininha com uma maquiagem de palhaço segurando um balão, e caos por ser caos não tem um pensamento que faça sentido ou possua lógica. Enfim, todo o quadrinho segue essa linha de raciocínio. A história também conta com deuses do Egito, Vikings, deuses gregos e romanos, representantes do céu e do inferno.

Uma das inimizades que Sonho conquista ao descer ao inferno para recuperar seu elmo, é com o próprio Lúcifer, também chamado na HQ de Chorozon. Os dois protagonizam uma das batalhas que mais me marcaram na série e que fizeram com que eu me apaixonasse pela HQ. E nesse caso não se deve pensar na batalha como um duelo físico e sim um duelo de palavras, onde um tentava anular o conceito do outro:

[choronzon] ‘Sou um lobo horrendo, um predador letal a espreita de sua presa’
[morpheus] ‘Sou um caçador a cavalo, ataco o lobo com uma lança’
[choronzon] ‘Sou uma mosca que pica o cavalo e derruba o caçador’
[morpheus] ‘Sou uma aranha de oito patas devorando a mosca’
[choronzon] ‘Sou uma cobra venenosa devorando a aranha’
[morpheus] ‘Sou um búfalo de patas pesadas esmagando a cobra’
[choronzon] ‘Sou o antraz, a bactéria carniceira, devorando a vida’
[morpheus] ‘Sou um mundo flutuando no espaço, nutrindo a vida’
[choronzon] ‘Sou uma nova explodindo, cremando planetas’
[morpheus] ‘Sou o Universo, abrangendo todas as coisas, abraçando toda a vida’
[choronzon] ‘Sou a antivida, a besta do julgamento, sou a escuridão no fim de tudo, o fim de universos, deuses, mundos, de tudo... E agora, Lorde dos Sonhos, o que você é? Enfrente a antivida!’
[Sandman]’Eu Sou a Esperança.’

O embate deixa a imagem de que ainda no fim de tudo, existe a esperança que é um conceito bem forte e muito real. Em nenhum arco há um plot twist, porque a história não se desenrola somente para chegar ao final. O fim é somente conclusivo, o mais legal é a viagem até ele.


Acho que classificaria Sandman com 4 estrelas pois no fim, acabamos por perceber que a ideia de Gaiman, ainda no universo DC, não tem a ver com lutas e combates físicos. Ele fez de Sandman um terreno para falar coisas filosóficas de uma maneira que não fique monótono, com diálogos e desenrolar de fatos explorados de uma maneira brilhante e até genial.


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