segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Resenha | Boa Noite - Pam Gonçalves

Alina quer deixar seu passado para trás. Boa aluna, boa filha, boa menina. Não que tudo isso seja ruim, mas também não faz dela a mais popular da escola. Agora, na universidade, ela quer finalmente ser legal, pertencer, começar de novo. O curso de Engenharia da Computação - em uma turma repleta de garotos que não acreditam que mulheres podem entender de números -, a vida em uma república e novos amigos parecem oferecer tudo que Alina quer. Ela só não contava que os desafios estariam muito além da sua vida social. Quando Alina decide deixar de vez o rótulo de nerd esquisitona para trás, tudo se complica. Além de festas, bebida e azaração, uma página de fofocas é criada na internet, e mensagens sobre abusos e drogas começam a pipocar. Alina não tinha como prever que seria tragada para o meio de tudo aquilo nem que teria a chance de fazer alguma diferença. De uma hora para outra, parece que o que ela mais quer é voltar para casa.

Alina Medeiros chegou a Pedra Azul com uma única certeza: estava na hora de ser mais do que a aluna inteligente da turma. Aos 18 anos pronta para iniciar sua vida universitária e também sua nova rotina como moradora da "República das Loucuras", Alina tem grandes expectativas para o semestre acadêmico que irá encarar, onde amizades, romances e desafios que vão além da sala de aula fazem parte do pacote. 

[...] a maioria das pessoas que chega na universidade espera que a vida tome um rumo totalmente diferente... Obviamente eu também. Tudo que eu quero é começar de novo.

Logo nos primeiro capítulos a autora procura estabelecer uma base para a personalidade de Alina que, apesar de querer mudar o status de "CDF", como ela mesma chama, continua sendo uma jovem dedicada aos estudos e fiel a família. Assim, testemunhamos o choque inicial que é conhecer seus colegas de república. Maduros, experientes (em muitos assuntos) e veteranos, Manu, Gustavo, Talita e Bernardo fazem parte do que irá se tornar sua segunda família na faculdade. 

Manu é espontânea, alegre e irônica. Sempre esperando a próxima festa. Mas apesar de parecer uma personagem rasa num primeiro momento, ela se desenvolve para algo muito mais complexo e intenso. Acredito que a autora tenha usado Manu para nos mostrar que todos, à primeira vista, são aquilo que escolhem projetar. Porém, quando os conhecemos, vemos que existe muito mais sob as barreiras construídas. 

Tenho vergonha do que as pessoas vão dizer, apesar de não ter certeza se sabem que eu sou a Alina da lista ou se ao menos se lembram da existência dela.

Outros personagens ganham destaque ao longo da trama. Alguns por motivos louváveis, como é o caso da amizade entre Alina e as colegas de classe, que constantemente são alvos de piadinhas dos rapazes que também cursam Engenharia da Computação. Outros por razões obscuras, como é o caso de Cauê Campos


Por essas "razões obscuras" Boa Noite acaba sendo muito mais do que qualquer leitor esperaria. Num mundo onde youtubers cada vez mais preenchem as prateleiras, o livro de Pam Gonçalves surge timidamente, mas pronto para surpreender e impactar. Boa Noite tem aquele estilo de narrativa que fica com você, querendo ou não. 

Uma continuação seria muito bem vinda, pois senti que a autora deixou algumas brechas para que isso se tornasse possível. Mas vale ressaltar que não é nada que faça com que a história deixe o gosto amargo de "inacabada". Não, Boa Noite é tocante e cativante desde a primeira página; uma prova de que autores nacionais merecem ganhar mais destaque e incentivos. 


[OFF] Há dois anos a pessoa que vos fala era Alina; pisando no pátio da faculdade sem saber para qual sala seguir, procurando um rosto familiar e torcendo para que minha roupa fosse apropriada para aquela nova fase. Assim como no livro, o primeiro semestre passou e tudo ficou bem. Ainda sinto uma certa imponência emanando daquele prédio com muitas escadas a cada semestre e percebo o quanto sou pequena. Mas sei que tudo vai dar certo. 

Meu ponto é: Pam escreveu um livro despretensioso que mexeu comigo, pois inúmeras vezes me vi naquelas páginas. Boa Noite ganhou meu coração. Por isso, serei eternamente grata. Obrigada, Pam. Você não vai ler isso (assim como disse que seus autores favoritos não leriam seus agradecimentos), mas gostaria que soubesse que mudou meu dia.


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