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Resenha | Menina Má - William March

segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Publicado originalmente em 1954, MENINA MÁ se transformou quase imediatamente em um estrondoso sucesso. Polêmico, violento, assustador eram alguns adjetivos comuns para descrever o último e mais conhecido romance de William March. Os críticos britânicos consideraram o livro apavorantemente bom. Ernest Hemingway se declarou um fã. Em menos de um ano, MENINA MÁ ganharia uma montagem nos palcos da Broadway e, em 1956, uma adaptação ao cinema indicada a quatro prêmios Oscar, incluindo o de melhor atriz para a menina Patty McComarck, que interpretou Rhoda Penmark.
Rhoda, a pequena malvada do título, é uma linda garotinha de 8 anos de idade. Mas quem vê a carinha de anjo, não suspeita do que ela é capaz. Seria ela a responsável pela morte de um coleguinha da escola? A indiferença da menina faz com que sua mãe, Christine, comece a investigar sobre crimes e psicopatas. Aos poucos, Christine consegue desvendar segredos terríveis sobre sua filha, e sobre o seu próprio passado também.
Menina Má é um romance que influenciou não só a literatura como o cinema e a cultura pop. A crueldade escondida na inocência da pequena Rhoda Penmark serviria de inspiração para personagens clássicos do terror, como Damien, Chucky, Annabelle, Samara, de O Chamado, e o serial killer Dexter.
Menina Má começa nos contando um pouco da história do autor e levantando algumas primeiras questões sobre o romance. A mais forte é: o quanto de m autor é passado para a obra? O que aparenta, em alguns momentos, é que Menina Má mais é uma "autoleitura" de William March do que uma história lúdica. Percebe-se que o autor passa um pouco de sua própria insegurança psicológica para seus personagens.

Como posso culpar Rhonda por seus atos? Quem tem essa semente do mal e o passou para ela fui eu. Se alguém tem culpa, esse alguém sou eu, e não ela.

Não há como negar a inteligência de March, nem que grande parte dessa inteligência fora doada para o livro. Em uma retrospectiva por minha estante, não fica difícil perceber que essa é uma das obras mais bem estruturadas. Menina Má é um livro que, como nenhum outro, obriga o leitor a pensar. Não por ter um mistério grandioso, sua história está muito bem clara desde a sinopse. A pergunta que te acompanha durante a leitura não é “quem é o assassino?”, mas sim “como isso será resolvido?”. E o final, tão simples e ao mesmo tempo brilhante, não deixa ser intrigante.

Já com o livro fechado, o autor continua criando duvidas. Será possível que a maldade seja passada geneticamente? O quanto se aprende e o quanto se é herdado? Até onde uma mãe vai para proteger o filho? A responsabilidade maior de Christine é com Rhonda ou com todas as futuras vitimas de sua filha? Essas são perguntas que ficam cravadas na mente durante e após a leitura. Questões nunca resolvidas, meras suposições que dividem opiniões. 

Seria possível contar a história de vida de qualquer personagem. A complexidade com que eles foram escritos, a humanidade - ou a falta de, no caso de Rhonda -, a profundidade de seus medos. Essas são apenas algumas das coisas que deixariam outros romancistas com inveja. Cada personagem possui uma profundidade em sua própria história e desenvolvimento com histórias de vida tão interessantes que é possível esquecer que o livro possui somente um protagonista.

E é assim que puxo minha analise de Rhonda, nossa protagonista mirim, amada por todos os adultos, porém excluída por todas as crianças. É difícil de acreditar, mesmo em uma história fictícia, que uma menina de apenas oito anos possa ser capaz de tanta ruindade. O que March faz com a mente da criança é um trabalho de mestre que nos permite acompanhar os pensamentos frívolos e calculados dos primeiros anos de um sociopata. É assustador, em alguns momentos, pensar que essa pequena vilã não está tão longe da realidade. Acredito que isso seja uma parte do que torna esse livro tão fascinante.

Não será surpresa pra ninguém dizer que minha classificação foi cinco estrelas. Um livro tão bem escrito, com personagens tão complexos e uma história tão humana e tão próxima a realidade, não teria como receber uma nota diferente.

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