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Resenha | Objetos Cortantes - Gillian Flynn

sábado, 5 de novembro de 2016
Recém-saída de um hospital psiquiátrico, onde foi internada para tratar a tendência à automutilação que deixou seu corpo todo marcado, a repórter de um jornal sem prestígio em Chicago, Camille Preaker, tem um novo desafio pela frente. Frank Curry, o editor-chefe da publicação, pede que ela retorne à cidade onde nasceu para cobrir o caso de uma menina assassinada e outra misteriosamente desaparecida.

Desde que deixou a pequena Wind Gap, no Missouri, oito anos antes, Camille quase não falou com a mãe neurótica, o padrasto e a meia-irmã, praticamente uma desconhecida. Mas, sem recursos para se hospedar na cidade, é obrigada a ficar na casa da família e lidar com todas as reminiscências de seu passado. Entrevistando velhos conhecidos e recém-chegados a fim de aprofundar as investigações e elaborar sua matéria, a jornalista relembra a infância e a adolescência conturbadas e aos poucos desvenda os segredos de sua família, quase tão macabros quanto as cicatrizes sob suas roupas.

Em seu primeiro livro, Gillian Flynn já anunciava o sucesso inegável que viria com o decorrer dos anos. Num thriller psicológico composto por personagens enigmáticos que protagonizam cenas tão perturbadoras que conseguem envolver o leitor por sua complexidade, a autora traça o perfil de uma cidadezinha do Missouri que não estava preparada para ser o cenário de um crime à frente do seu tempo. 

Camille Preaker retorna a Wind Gap oito anos após sua partida abrupta para escrever sobre o assassinato de uma garotinha e o desaparecimento de outra. Crimes que, apesar da distância temporal, parecem estar conectados, levando seu editor-chefe, Frank Curry, a acreditar que aquela cidade contém o que é necessário para alavancar o Daily Post, um jornal sem prestígio de Chicago.

Wind Gap pode ser traduzido, literalmente, como um “intervalo de vento”, algo que traduz muito bem o sentimento transmitido pela cidade; uma curva onde o tempo não passa, onde qualquer avanço simplesmente cortou caminho e preferiu deixar os habitantes seguindo seus costumes ultrapassados e sufocantes. Definitivamente o tipo de lugar que faria com que os mais jovens se sentissem presos sob uma redoma.

Algumas vezes, se você deixa as pessoas fazerem coisas a você, na verdade você está fazendo a elas [...] Se alguém quer fazer coisas esquisitas com você, e você permite, você as torna mais perturbadas. Então você tem o controle. Desde que não enlouqueça. 

Amma Crellin, irmã mais nova de Camille, representa muito bem o que essa prisão, mesmo que metafórica, pode fazer a uma garota de treze anos. Prestes a fazer descobertas sobre seu corpo e sobre o tipo de pessoa que irá se tornar, ao mesmo tempo em que tem pouquíssimas demonstrações de afeto por parte da mãe, exceto quando está doente, Amma procura viver uma vida dupla: durante o dia é a mimada menina de ouro enquanto à noite mergulha na fumaça de baseados e lençóis de rapazes da faculdade.

Mesmo com sua peculiaridade Amma não é a personagem mais interessante de Objetos Cortantes. Por mais clichê que possa parecer, Camille protagoniza todas as páginas, com sua instabilidade psicológica e diálogos com Richard Willis, detive que investiga o caso de Ann e Natalie. É interessante ver como essa mulher (que parece ser) forte desmorona quando pensa em pequenas coisas que envolvem seu passado e traduz seu desespero em uma palavra; isso a torna real.


Por conhecer o estilo da autora através de Garota Exemplar, sua obra aclamada pela crítica e público, tinha certa expectativa, apesar de saber que o primeiro livro é apenas um pequeno vislumbre do potencial de um autor. No caso de Gillian Flynn sua obra foi uma surpresa agradável, uma vez que esperei todas as expectativas esvaírem antes de iniciar a leitura. Recomendo bastante, inclusive para aqueles que querem conhecer Gillian por meio de uma literatura menos popularizada.


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