terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Tratado do Pão Celestial - Estamos Sendo Justos com Renato Aragão?


Respondendo a pergunta do título, não estamos sendo. Todo mundo vai adorar homenagea-lo e a nostalgia começará de uma forma geral quando ele morrer, conforme diz Neil Strauss em Fama e Loucura “todo mundo te ama quando você está morto”. Porque não estamos o valorizando tanto assim em vida? Alguns poderão dizer que sim, ele tem sido homenageado por eventos como o Risadaria e a Comic Con Experience. Os Trapalhões estão pra voltar, não sei se a Globo finalmente se deu conta que deveria homenagear os cinquenta anos de existência do grupo, uma vez que em 1991 tivemos 25 horas seguidas deles de uma forma ou de outra na programação, culminando no Criança Esperança daquele ano e em uma edição mágica da Escolinha do Professor Raimundo.

Mas hoje em dia Renato Aragão é lembrado basicamente pelas histórias, algumas lendas urbanas, outras nem tanto. Há o caso de recusar a dar água a pedreiros que faziam um trabalho em sua casa. Há mais de um relato dele detestando ser chamado de Didi, exigindo ser chamado de Doutor Renato e certa vez aparentemente ele pediu a demissão de um manobrista por te-lo chamado de Didi. Aí some-se isso o fato de seus programas não terem necessariamente o brilho do passado (mas subestimados), apostar bastante na Escola Pós-Moderna Renato Aragão de Humor (extintores de incêndio, o que ainda é engraçado).

Sem falar que houve uma negligência com Dedé Santana a partir do final da década de 1990, quando A Turma do Didi entrou no ar, mas sem ele, que foi parar no Zorra Total por intermédio de Chico Anysio, foi parar na Record pra fazer a Escolinha do Barulho, ficou uns anos vivendo de circo e aparecendo em programas dos outros (o auge dessa fase foi uma aparição no finado Descontrole, de Marcos Mion, onde eles fizeram uma cambalhota dupla, como em Os Saltimbancos Trapalhões). A sensação geral de abandono era geral, assim houve o reencontro dos dois no Criança Esperança 2003, as pessoas choraram, o mundo teve um pouco de paz por uns 10 minutos, mas no fim Dedé não voltou pra Globo. Então Beto Carrero surge pra salvar o velho amigo, criando assim Dedé e o Comando Maluco, que por vezes vencia A Turma do Didi aos domingos, até que Silvio Santos o botou pros sábados de tarde pra combater Angélica, o que funcionava bem. Então o homem do chicote de barulho mágico morre e finalmente em 2008 o retorno é definitivo, com emoção, choro daqueles que ainda se importavam (eu e mais uns 30) e a mesma música do reencontro de 2003, que por sua vez é do LP de 1987.

E há também as acusações sobre racismo, mas isso eu questionarei mais tarde.

Com tudo isso, ele deveria agradecer aos céus que ele é mais lembrado pelo meme que inspirou milhares de versões, tanto pela criatividade da internet quanto pelo fato dele contar isso praticamente toda hora desde 2000.




NO CÉU TEM JUSTIÇA?

Jerrod Carmichael diz em um de seus especiais que o talento supera a moralidade, que não se deve perseguir aquele com talento, pois o talento é algo para poucos e limitado, alguns atingem seu auge e mesmo depois do mesmo conseguem se manter acima da média.

Os Trapalhões foi algo acima da média mesmo após a morte de Zacarias em 1990. 1993 foi um ano atípico onde as reformulações não deram muito certo, apesar de ter a consultoria do Casseta e Planeta e a direção de José Lavigne. A nostalgia reinante faz pensar que o programa se apoiava no carisma de Mussum. O carisma dele é inegável e isso já foi tratado quando falei de sua biografia em um de meus primeiros textos aqui. Mas Renato precisa ser mais valorizado.

É muito fácil acusar hoje o programa de ser altamente racista, julgar e falar qualquer coisa pra ganhar credito com as pessoas próximas, algo chamado por algumas correntes de “querer ganhar biscoito”. Quem vê até pensa que todo mundo era altamente racista e as vítimas aguentavam caladas. Mussum Forévis aponta claramente que o mangueirense rebatia na mesma moeda quando o provocavam, quando o chamavam de negão, eram recebidos por um sonoro “negão é a tua veia!”, sem falar na lista extensa de apelidos e provocações que Renato e Mussum trocavam entre si de forma completamente esportiva, estava tudo em casa.

Mas ao mesmo tempo que essas acusações existem, esquecem do brilhantismo de quadros como a vez que Didi passou 10 minutos perturbando Hitler. Esquecem das maravilhas nas improvisações e nas piadas internas. Estamos lidando com uma geração nova, que não cresceu vendo os filmes dos Trapalhões (até porque a Globo não passa) ou até mesmo os bons do Renato (1997 até 2003). Uma geração que acha Paulo Gustavo uma opção viável de humor. Que acha que humor tem que ser afrontoso, mas não necessariamente engraçado, se não tiver mensagem social não serve (é uma minoria, mas é barulhenta), assim temos Lena Dunham tornando nosso mundo mais terrível a cada dia e se mantendo relevante apesar de seus fracassos, por exemplo.

É muito fácil criticar coisas hoje em dia sem ver o contexto. Ter um pouco de maucaratismo e/ou nao estar nem aí também ajuda. Anos atrás Renato deu uma entrevista pra Playboy onde ele disse que era mais difícil fazer humor hoje em dia porque agora todo mundo que não se ofendia está se ofendendo, até se esquecem do fato de que ele é nordestino, um povo que historicamente é vítima de preconceito e o responde na base do humor. Foi só dar essa declaração que caíram em cima dele tal qual trombadinhas em cima de turistas na Presidente Vargas. E não adianta argumentar com essas pessoas, pois a experiência prova que são teimosas e só querem falar mal mesmo. Adianta falar que era um senhor de quase 80 anos tentando se adaptar no mundo atual e que é muito mais difícil pra ele do que jovens gostosões de 20 e poucos que só sabem comentar na internet e eventualmente abraçam causas pra não perderem o andar das tendências?

E não é que ele ele não saiba aceitar críticas, se tem uma pessoa que levou pancada da imprensa especializada ao longo de 51 anos com Os Trapalhões (56 se contar somente o personagem Didi Mocó), foi Renato Aragão. Sempre acusado de ter um programa popularesco (um eufemismo pra cafona, brega, baixo nível), que sobreviveu sempre pelo carinho do povo e com o tempo pela admiração de intelectuais, o que deixava a crítica sem entender, como na vez que Carlos Drummond de Andrade disse que nunca perdia o programa e de quando Ariano Suassuna autorizou fazer Os Trapalhões no Auto da Compadecida (1986) por ser fã do programa. Isso talvez tenha o forçado demais a sempre ter algo a querer provar a crítica, que tinha certa razão quando reclamava que Aragão sempre tentava emular Chaplin em seus filmes, ele chegou a fazer isso até no programa.

Posso estar gritando para as paredes, mas tal qual no caso do Ringo no outro texto, só vão reconhecer o valor quando morrer, mas aí é muito fácil. É preciso valorizar o talento enquanto ele está em vida. Intrigas não podem influenciar a arte, a menos que por algum motivo a arte seja inspirada pelas mesmas. Um dia farei um texto sobre como militância e fanatismo pode ou não atrapalhar a apreciação de determinadas obras.


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