domingo, 5 de fevereiro de 2017

Review | Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood (2017)


O Grande Circo Sumatra está em meio a uma grande crise financeira desde a proibição de animais em espetáculos e Barão (Roberto Guilherme), dono do circo, acaba aceitando fazer leilões de gado, comícios e outros eventos alternativos no circo. Didi (Renato Aragão) e Karina (Letícia Colin), artistas do circo, estão infelizes com a situação e decidem montar um novo número e, assim, tentar atrair o público novamente.

Dizer que o filme é simpático e honesto geralmente é um eufemismo para “eles tentaram, vou me esforçar pra não parecer que estou falando mal”, mas nesse caso ser simpático, honesto e esforçado são qualidades que tornam esse filme uma boa experiência. É o que os americanos chamam de soft reboot, o conceito básico está ali, algumas ideias e personagens novos foram incluídos e assim a história se mantém atualizada e interessante, sem perder a essência. Basicamente o que Caça Fantasmas (2016) poderia ter sido, por exemplo.

É uma sequência ao clássico nacional Os Saltimbancos Trapalhões (1981), um dos campeões nacionais de bilheteria. Um filme magnífico, o que dava uma responsabilidade maior a esse, além de inevitáveis comparações com o material original. Eu vos digo que os filmes se completam, há paralelos entre um e outro, algumas cenas clássicas se repetem, ainda que com outros personagens. Essa versão foi inspirada no sucesso teatral de Os Saltimbancos Trapalhões, com a direção de Charles Moeller e Claudio Botelho, que também assumiram a direção musical do filme.

Como dito no início, o filme é simpático, agradável. Ao mesmo tempo que em que há espaço para que Renato Aragão improvise e faça graça com seus parceiros em cena, em especial Dedé Santana no começo do filme, nunca antes houve um roteiro tão bem estruturado para um filme dos Trapalhões, tudo se encaixou perfeitamente. A história de 35 anos atrás teve novos elementos, a modernidade chegou e conseguiu se misturar com o clássico.

Alguns momentos deram uma sensação de A Turma do Didi, em especial em alguns casos da sonoplastia depois de algumas piadas, mas não interferiu na experiência. Houve um grande esforço para que um bom filme fosse feito, os cenários são bonitos, os arranjos novos para as músicas de Buarque, Bardotti e Bacarov ficaram bons, suspeito que sejam os mesmos usados para o teatro.

O elenco esteve bem. Nelson Freitas foi uma boa adição no papel do prefeito corrupto e Roberto Guilherme, o eterno Sargento Pincel merece destaque por fazer um bom Barão, o qual era um vilão no original. O fato de não terem apelado para gente do elenco antigo é um ponto positivo, no fundo eu estava esperando que Lucinha Lins fizesse uma aparição especial.

Houveram repetições de piadas, mas nada que ficasse cansativo. A propaganda contra animais no circo só ficaria mais clara se os atores olhassem direto pra câmera e encarassem o público, pelo menos não esteve espalhada pelo filme. Nem toda referência de cultura pop funcionou no filme, mas Didi na entrega do Oscar explicando pra Tom Hanks (Dan Stulbach) que ele se parece com o ator brasileiro e explicando que “ele dava umas raquetadas na mulher, mas era novela, era de mentira, então tá tudo bem”.

O filme ao mesmo tempo pode conquistar novas gerações como atrair as antigas e faze-las lembrar que Aragao ainda está afiado. Há um certo conforto na alma quando Didi chama alguém ironicamente de “engenheiro”, como era feito no passado. É o melhor filme dos Trapalhões (ou da carreira solo de Renato) em muitos anos. Melhor que tudo feito desde O Noviço Rebelde (1997), preciso ver mais filmes antigos para poder afirmar onde se encaixa no contexto geral de seus 50 filmes. Mas dá pra dizer que não deve nada ao original.

O final foi emocionante, houve a homenagem aos parceiros que se foram, choro de Aragão no picadeiro antes e depois dos créditos (nesse ponto o diretor aparece e o abraça). Bons erros de gravação durante os créditos. É um filme extremamente honesto no que se propõe. É o tipo de humor que Renato Aragão sabe fazer de melhor, em uma boa fase. Vale a pena assistir e se divertir.


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