Top Social

Precisamos falar sobre o rádio

sexta-feira, 28 de abril de 2017




Aqui será traçado um paralelo de como ouvir rádio é importante na minha vida desde sempre e abordarei a crise que assola as rádios no Rio de Janeiro e em São Paulo, numa menor escala.

Eu cresci ouvindo rádio, em especial na adolescência. Ouvir rádio é pouco pra descrever, eu cresci ouvindo a Rádio Globo quando ainda era só AM, eu a ouvia o dia inteiro. Era o tempo que o lema da rádio era “Música, Esporte e Notícia”. Muito aprendi com a rádio, cresci ouvindo determinadas vozes, algumas não estão mais por lá e outras estão mortas. Muitas noites, muitos finais de semana com um rádio ao lado. É significativo, considerando que isso foi na minha adolescência. E por anos houveram mudanças abruptas na programação, alguns programas abaixo da média e ainda assim me mantive fiel. Na época que era só AM, haviam programas fascinantes, como um programa de debates chamado Quintal da Globo, onde temas eram debatidos, o público participava, havia música e mudanças no programa eram feitas de forma democrática. Então com o tempo a rádio foi para o FM, a programação foi mudando, determinados nomes foram saindo da rádio e passei a ouvir menos. Até porque com o tempo o rádio passou a rivalizar com músicas baixadas e outras formas de entretenimento. 

Em 2010 eu descobri o Rock Bola, na época na Oi FM. A partir daí sempre escutei o programa, a reprise e a baixar o programa. Com isso passei a ouvir menos a Globo, que com tantas mudanças passou a ser menos atraente, passou a piorar na minha concepção. Passei a escutar em momentos pontuais, como na parte esportiva e alguns programas específicos, além da madrugada, passei uma década com o costume de dormir com o rádio ligado, pois sempre havia algo bom pra se ouvir. Com o tempo passei a ouvir mais o Rock Bola e um pouco da rádio, mas a grande virada pra mim foi quando surgiu a Bradesco Esportes, uma rádio que só falava de esporte. Passei a me dividir entre três rádios: a Globo, a Oi FM e a Bradesco. Então em maio de 2012 a Bradesco contrata o trio principal da Globo(José Carlos Araújo, Gilson Ricardo e Gérson) e assim eu paro de ouvir a Globo e tenho uma nova rádio a ouvir em definitivo: a Bradesco Esportes.

Nesse mesmo 2012, bem no começo, a Oi FM acaba, o grupo que compõe o Rock Bola fica sem rádio e sem o nome, que pertence à Rádio Cidade, que por sua vez faz um programa com essa marca para uma rádio chamada Verão. Tanto o programa quanto a rádio duraram bem pouco. O grupo por sua vez vai parar na MPB FM, que assim como a Bradesco fazem parte do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Nessa época eu os conheço pessoalmente e passo a aparecer e eventualmente colaborar no programa, que precisava de um nome novo. Foi feita uma enquete para a escolha do nome novo, o vencedor foi Pop Bola.

Experienciar uma rádio por dentro é algo fascinante, mesmo quando só se frequenta de vez em quando. Você conhece a equipe, se familiariza com o local, eventualmente conhece os convidados, nunca há um dia tedioso. As pessoas acabam te escutando se você por acaso fala no dia(eu não falava sempre, só quando chamado, eu geralmente ia para visitar, em especial no começo, onde meu foco era não atrapalhar). Em abril de 2013 o programa foi para a Bradesco Esportes e mudou de horário, assim eu passei a ouvir a Bradesco em 90% do meu tempo escutando rádio, pois a programação era bastante interessante pra mim, o público reclamava que haviam muitos programas de São Paulo(que eram bons) e que a rádio falava de muitos esportes que as pessoas não falam muito, que era o propósito da rádio. O projeto da rádio era a médio prazo fazer a melhor cobertura possível da Copa do Mundo(que foi feito com a Rede Verde e Amarela) e das Olimpíadas, uma vez que cobria todos os esportes, até mesmo os paralímpicos.

Infelizmente a Bradesco Esportes FM, que já estava com o futuro incerto ainda antes das Olimpíadas aqui no Rio de Janeiro, saiu do ar em São Paulo ontem(12 de março), justo quando a audiência só crescia. Saiu do ar no Rio semanas antes, mesmo depois de uma movimentação feita pelo Grupo Bandeirantes que tirou do ar a MPB FM e suspeitava-se que era para manter a Bradesco. No fim das contas só trocaram o número no dial da Band News e a numeração antiga voltou para a Rádio Fluminense, a Maldita. O pessoal do Pop Bola saiu da rádio em junho de 2015 e meses depois foi para a Rádio Globo. E assim acabei ouvindo mais a Globo de novo, até porque houveram certas melhorias na programação.

Entretanto, a crise que vem assolando as rádios nos últimos anos atinge a todos. Além da supracitada Bradesco FM, em São Paulo a Rádio Estadão acabou e foi arrendada para uma igreja. No Rio de Janeiro a crise é bem maior:

● A Rádio Cidade acabou mesmo sendo uma das 10 maiores audiências da cidade. A alegação aparentemente é que a rádio não era rentável o bastante.

● A MPB FM, que sempre foi sucesso de público e crítica, além de ser divulgação para artistas novos da MPB, se foi. Felizmente a dona dos programas mais famosos(Samba Social Clube, Palco MPB) está vendendo os formatos para outras rádios, o que é melhor do que nada.

● A Rádio Tupi está em uma crise que se alterna entre grande e enorme, já ficou mais de uma vez fora do ar porque os funcionários entraram em greve por falta de pagamento.

● A própria Globo, alegando corte de custos, fez umas demissões em massa, se desligando assim de funcionários com muitos anos e serviços prestados à emissora, o que acaba influindo na qualidade. O exemplo a citar é o Carnaval. Todo ano, mesmo nos anos que eu deixei de ouvir a Globo, eu fazia uma exceção, que era o Comando Geral do Carnaval. 96 horas seguidas de programação, todos os locutores da rádio se revezando, transmissões ao vivo dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial e do Grupo de Acesso, avaliações com gente mais entendida que na TV, gente que sabe do que está falando, análises corretas. Nesse ano não houve isso e nem poderia, pois quem era especialista nessa área foi embora. É preocupante.

A situação é temerosa, pois nesse ritmo restarão apenas rádios religiosas(que só aumentam de número), rádios popularescas(FM O Dia), rádios para público jovem(Mix, Transamérica), rádios de notícias(CBN, Band News) e rádios adulto-contemporâneas(JB FM, Antena 1). A vontade do público meio que não importa mais, caso contrário não veríamos gente chorando a falta da Rádio Cidade e compartilhando fotos de 2014 achando que a rádio está voltando, tal qual eu já vi hoje.

Infelizmente eu não vejo uma melhoria nesse cenário, o público é um terreno desconhecido, algumas rádios tradicionais tentam atrair ouvintes mais jovens, mas não creio que elas saibam muito o que estão fazendo no momento. Estamos fadados ao aumento da invasão das rádios religiosas, a própria Bradesco FM virou a Rede do Bem, por exemplo.

ADENDO

Uma das figuras mais emblemáticas da Rádio Globo sairá da emissora por uma justificativa ridícula. Antonio Carlos, 30 anos de emissora, alguém que gerações escutaram pela manhã cedo quando acordavam. A justificativa é rejuvenescer os ouvintes, trazendo locutores novos. Assim Otaviano Costa será o novo locutor da rádio. E o histórico locutor provavelmente salvará a Tupi do caos.

Não é só isso, a rádio destruirá toda sua parte de maior audiência, a mais tradicional, para tentar conquistar um público que nunca se interessou muito por ela. Perderá o público habitual para se arriscar em algo incerto. Antonio Carlos, Momento de Fé(com Padre Marcelo Rossi, a maior audiência do rádio brasileiro) e Manhã da Globo com Roberto Canázio sairão do ar. Quem aproveitará a audiência migrando? São questões sem muitas respostas por enquanto, mas eu arriscaria dizer que rádios especializadas em notícias se verão beneficiadas pelas mudanças. E a desfiguração do rádio segue em curso.


Post Comment
Postar um comentário