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20 ANOS DOS DOIS MELHORES ÁLBUNS DE 1997

sexta-feira, 16 de junho de 2017


“Para mim, o skinhead vem de dentro. Como skinhead, deve primeiramente amar seus Doc Martens, amar ska, deve ter a atitude correta - ter a atitude correta no coração e na mente. Tem que gostar de futebol, tem que gostar de dançar com mais vontade do que qualquer pessoa de qualquer outra subcultura. E o mais importante, eu acredito, é que você tem que ser antiracista.”

Buster Bloodvessel

Os dois melhores discos de 1997 são de ska. O que é ska mesmo? A resposta poderia se resumir a esses 3 minutos, mas seria muito fácil. É a mistura de reggae, jazz e R&B desenvolvida na Jamaica por volta da década de 50 e que sem mantém viva até hoje. O foco geralmente é em músicas rápidas, onde os metais tem destaque e a estrutura musical depende de bom entrosamento entre baixo e bateria.

No Brasil os Paralamas do Sucesso ficaram notórios por isso no começo da carreira. Internacionalmente ficou marcado na Inglaterra na primeira metade dos anos 80 por ser a música das classes trabalhadoras (os skinheads) e conseguir ao mesmo tempo conseguir ser movimentada e levantar questões sociais quando necessário, como The Specials fez com Ghost Town. Outros exemplos de bandas do movimento 2 Tone são Madness, The Selecter e Bad Manners.

Houve um revival nos anos 90 com a Terceira Onda do ska nos Estados Unidos, onde surgiram bandas como Sublime, No Doubt, Reel Big Fish, Goldfinger e Mighty Mighty Bosstones. Bandas essas que por sua vez tinham uma orientação mais voltada para o rock e o punk. A exceção à regra é a que fez um dos álbuns do qual falarei.

The Slackers - Redlight (1997)

É o segundo álbum da banda de Manhattan, mas parece de uma banda mais experiente. Isso se explica pelo fato da banda ser de 1991, mas só ter lançado seu primeiro trabalho em cinco anos depois. Ao contrário das bandas americanas de ska citadas acima, que são mais aceleradas, a banda comandada por Vic Ruggiero mantém o ritmo mais fiel às origens do estilo, mais cadenciado.

A essa altura vocês que leem essas avaliações devem ter notado que eu prezo pela qualidade das músicas e a estrutura de um álbum, a quantidade e a sequência de músicas. Começar e encerrar bem um disco faz toda a diferença. Dito isso, posso afirmar que esse é um álbum que em seu gênero é dos que chegam perto da perfeição.

As melhores faixas são as iniciais. Começando por Cooking For Tommy, uma homenagem a Tommy McCook, de The Skatalites. Watch This mantém o estilo e ritmo. Então temos as primeiras músicas com letra, que se tornaram clássicos da banda: Married Girl e I Still Love You. A primeira fala de um caso de amor com uma mulher casada tratado de uma forma curiosa. A segunda, apesar do nome, é uma canção anti romântica. Uma pérola entre as canções de pé na bunda.

Às outras canções com letra são boas, o ritmo é semelhante a clássicos do estilo, como Prince Buster ou Laurel Aitken, mas com o toque certo de modernidade, a voz de Ruggiero também colabora para um resultado surpreendente. Assim, Rude and Reckless, You Must Be Good e Come Back Baby, que encerra o álbum, são memoráveis.

Bad Manners - Heavy Petting (1997)

Bad Manners por sua vez surgiu em 1976, mas só lançou seu primeiro álbum em 1980, fazendo parte do movimento 2 Tone e tendo como destaque a irreverência, em geral de seu vocalista, o gordo, careca e orgulhoso de ser essas duas coisas: Buster Bloodvessel. A banda teve algumas mudanças em sua formação nos anos clássicos e mudanças drásticas após 1987, quando boa parte da banda original saiu, o que rendeu um álbum ótimo e um álbum irregular, para dizer o mínimo. Assim, o grupo ficou 5 anos sem lançar um trabalho novo e ficou mais em turnês, onde os shows eram sempre um sucesso e as lendas alimentares sobre o vocalista se espalhavam, como ter comido 27 Big Macs seguidos e só não ter comido o vigésimo oitavo porque o dinheiro acabou. Ou a vez em que Buster comeu um tubarão inteiro que foi servido à banda durante uma turnê no Oriente Médio.

Lendas a parte, a banda invariavelmente sempre foi competente, mas houve a desconfiança de estar perdendo o fôlego criativo após 20 anos de carreira. Mais da metade das músicas do álbum anterior foram covers e nem todos ficaram bons. E músicas inéditas faziam referências muito diretas a músicas antigas de sucesso da banda. O sinal de alerta estava ligado.

Aqui podemos presenciar uma fênix surgindo das cinzas. Desde o começo já se nota a renovação e a sede por sangue (ou sucesso). Músicas de outros artistas basicamente se tornam deles, são refeitas de forma definitiva, tudo funciona. O disco começa com Don’t Knock The Baldheads, que já era uma canção/grito de guerra usado quando a banda voltava para o bis anos antes. Altamente dançante e impactante. Aí, quando se pensa em descansar você escuta uma bateria com baixo que soa familiar, seguida de um YEEEEAHH. Surge a coisa que mais era aguardada na vida, sem que soubéssemos a versão definitiva de Black Night, do Deep Purple. Nunca antes a substituição da guitarra por uma seção de metais (trombone, trompete e saxofone) foi tão acertada. A voz grave de Bloodvessel completa o pacote e torna um rock clássico pesado mais dançante. A próxima música, Down Berry Wood, é mais tranquila que às duas primeiras, mas está longe de ser tediosa, é mais doce e amorosa e serve pra apresentar bem os teclados e a gaita, dessa vez no comando de Dave Turner(que também é historiador da banda).

Outro álbum que começa avassalador logo no início. O detalhe desse é que até os fillers são aproveitáveis, não há uma música descartável aqui. Happiness é agradável para manter o ritmo de Down Berry Wood, depois há a canção título, com uma inesperada guitarra havaiana e continuando a tendência de ter pelo menos uma letra levemente tarada (tal qual Wet Dream no álbum anterior, um dos pontos altos). Todos os covers feitos nesse trabalho são magníficos, os dois que abrem o álbum e os três na segunda metade. Feel Like Jumping é na verdade o remake de um cover, uma vez que originalmente o cover foi feito em 1992, mas faltou algo. A versão de Heavy Petting aumenta a potência e é revigorante, como tomar um grande gole de chá gelado depois de um dia horrível. A gaita brilha nessa versão. E na sequência há Red River Ska, talvez o último grande número instrumental feito pela banda, nunca se imaginaria que é baseado num clássico country.

O fim do álbum tem uma música sentimental, uma música que é resumidamente alegria alcoólica e Go, que encerra o trabalho com grandeza, seja pelos backing vocals femininos, o teclado no final da música ou pela coesão de todo o disco, que vai te dar vontade de ouvir de novo.

Aí temos a pergunta do amigo internauta:

“Como esses podem ser os melhores álbuns de 1997? O que outros artistas, aqueles que nós sabemos quem são estavam fazendo?”

Você talvez tenha se perguntado isso. Eu respondo:

Por um acaso Paul McCartney lançou seu melhor álbum solo em pelo menos 20 anos em 1997, Flaming Pie é ótimo e só não ficou em primeiro lugar devido ao fenômeno que tomou o mundo de assalto naquele período: as Spice Girls. E essas pessoas só afirmariam que pelo menos um dos dois álbuns que elas lançaram naquele ano foram os melhores do ano pelo mesmo motivo que eu amo Space Jam: nostalgia. Fora o fato que Space Jam tem trilha sonora melhor que qualquer disco delas e elas não tem Bill Murray em seu filme.

Enfim, U2 lançou um álbum não tão bom, eu não me importo com Radiohead, os Bee Gees lançaram um álbum decente, Elton John lançou The Big Picture, do qual eu sempre acabo reclamando, mas com o advento da morte da Princesa Diana, teve com Candle in The Wind o single mais vendido da história. Michael Jackson lançou cd novo, mas praticamente de remixes. The Offspring lançou um bom disco.

Como provas que Deus gosta de rir do nosso sofrimento musical, foi o ano em que surgiu Barbie Girl, a banda Hanson surgiu com MMMBop e Titanic existiu, com ele, Celine Dion e aquela música que agora todo mundo usa ironicamente. E em menor escala nesse aspecto tivemos Madonna cantando Don’t Cry For Me Argentina.

Nesse ano surgiram músicas emblemáticas, sim. Ricky Martin passou a existir, The Cardigans veio com Lovefool, Blur apareceu com Song #2, Smash Mouth e Chumbawamba eram relevantes, Grupo Carrapicho figurou no topo das paradas europeias. E surgiu a música da Copa do Mundo de 1998.

E ainda assim a melhor música individualmente naquele ano foi… Don’t Speak? Que foi gravada em 1994, lançada em 1996 (lançada no Reino Unido em 1997), indicada ao Grammy de Música do Ano em 1998 e nunca entrou na Billboard. Por mim tudo bem. Fecha o ciclo, de certa forma. E, Chris Rock concordaria comigo.


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