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JOÃO DONATO E DONATINHO - SINTETIZAMOR (2017)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Se eu estou aqui falando de um álbum de 2017, e nacional ainda por cima, é sinal de que o mundo vai acabar ou o negócio é realmente bom. Te garanto que é a segunda. Estamos diante de um dos melhores álbuns do ano

Conforme sabemos, não é todo dia que venho falar de música atual, ainda mais nacional, mas toda uma conjunção astral aconteceu e preciso relatar antes de começar:

Em um dos primeiros Guias do Consumidor que fiz, mencionei uma das melhores compras que fiz nessas promoções da internet. João Donato, em um CD ao vivo numa mistura de jazz, bossa nova e ritmos latinos. Paixão à primeira vista, não consegui parar de ouvir esse disco e sempre acaba voltando pro rádio. Sendo que antes já tinha lido sobre ele e como ele era ativo em uma idade já avançada e trabalhava com a juventude. Sempre esteve no meu radar.

Enquanto isso, recentemente tive a feliz surpresa de ver um crítico de música escrevendo de forma interessante e agradável. Seu nome é Pedro Só, de O Globo. Ele fez uma crítica recentemente sobre um rapper branco que aparentemente carregou nas tintas da culpa por ser branco, privilegiado, esse discurso cansativo que alguns usam pra conseguir validação na sociedade confusa atual. Esse crítico mandou a real durante o texto ao invés de convergir a esse discurso barato. Até chegou a bocejar durante a crítica, foi uma leitura que agradou meu dia. Eis que poucos dias depois surgiu uma crítica nova, dessa vez sobre o novo trabalho de Donato, o qual eu não estava sabendo e dessa vez com seu filho Donatinho. A crítica estava tão bem feita e embasada que me empolgou a querer ouvir o disco e escrever sobre, uma vez que já estou na produção de um novo Guia.

Eu queria muito ter a cópia física para poder ter um embasamento melhor, mas não acho pra comprar, algo que faço questão, mesmo usando o Spotify com alguma desenvoltura. Assim, estou ouvindo pelas formas possíveis no momento. Felizmente, fazendo minhas pesquisas, pude ver que Donatinho está explicando algumas faixas em sua página oficial, então dá pra trabalhar de forma satisfatória.

Após toda essa historinha, estamos aqui hoje pra falar de um disco que se entrar naquela lista de melhores do ano daquelas revistas chiques como a Rolling Stone, a revista não está fazendo mais que sua obrigação. E se não entrar, será uma grande injustiça. João Donato, o camaleão da bossa nova, explora o pop, o groove e música eletrônica com seu guia nesse mundo, Donatinho em Sintetizamor.

Nada te prepara para o começo do álbum. O ritmo é eletrônico, a batida é dançante e do nada surge um sintetizador permeando o ar. A viagem é intergalática, como a capa do álbum sugere. E em meio a isso tudo, uma letra tipicamente brasileira, com rimas gostosas de se ouvir. De Toda Maneira resume na abertura o que vem por aí, tal qual uma música como This Is Ska resume a experiência de se ouvir o ritmo ska ou a banda Bad Manners de uma forma sensorial.

Quando falamos que o disco é pop, é uma forma limitada para descrever a qualidade existente. As referências de Donatinho são inspiradas no funk dos anos 70, como Earth, Wind and Fire. Assim, é de se esperar que juntamente com os experimentos eletrônicos hajam metais em chamas. Surreal, por exemplo, além dos metais, tem Donatinho cantando a música toda no talkbox(aquilo que o Peter Frampton usa desde os anos 70 pra músicas como Show Me The Way).

A primeira metade do disco é imbatível, além das duas já citadas tem o mergulho na disco music com Quem é Quem, a primeira onde Donatão canta. Aí entra Interstellar, que quando ouvi pela primeira vez achei que tinha dado erro e estava tocando Bruno Mars ou algo do tipo. Parece aquelas músicas que você escuta em anúncio de Spotify e acaba te conquistando(tal qual aconteceu comigo ouvindo Hard Times, do Paramore), mas com aquela roupagem oitentista que você só acha  naqueles heróis desconhecidos que remixam num Soundcloud da vida. Fechando essa metade, há Lei do Amor, a música mais Ed Motta já feita desde que o mesmo fez o maravilhoso AOR poucos anos atrás.

Não há um momento tedioso por aqui, pois quando se espera mais alguma batida suave e dançante, surge Clima de Paquera, que é basicamente aquela batida romântica que você escutaria num Good Times, mas sem alguém cantando, só a paquera mesmo entre partes da música. Xavecos esses tão singelos que você simplesmente aprecia. É como o Barry White conquistando alguém sem precisar usar a voz suave e depois o vozeirão. Uma Just The Way You Are sucinta e mais doce.

Luz Negra representa excessos e como no lugar certo não causam problemas. Excesso aqui foi da voz sintetizada em parte da música, mas o groove continua em alta aqui, mais ou menos como a boa playlist Push Button Funk do Spotify. Vamos Sair à Francesa é uma bossa eletrônica onde Donato brilha e há uma merecida pausa em toda a movimentação proporcionada até então. Ilusão de Nós mantém a suavidade pontuada por efeitos eletrônicos. Hao Chi fecha o disco, é um instrumental que mistura bem o piano com a batida eletrônica, dando um bom resumo de tudo.

Em suma, é um álbum altamente recomendável, é a mistura de Uptown Special, de Mark Ronson com AOR, de Ed Motta. Tudo isso junto com uma porção tipicamente brasileira de ritmos. É à prova de falhas. Com 82 anos, Donato tem a vitalidade de alguém com 28, tanto musicalmente, quanto pra aprender algo novo.


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